domingo, 31 de agosto de 2008

Bartleby, O Escriturário

Por Marcelo De Franceschi
"Bartleby, the Scrivener: A Story of Wall Street" é um conto do escritor estadunidense Herman Melville (1819-1891), mesmo autor do grandioso Moby Dick. Narrado anonimamente em primeira pessoa por um advogado de Wall-Street, que trabalha com mais 3 personagens secundários, a história trata sobre a admissão de um novo funcionário no escritório nova-iorquino: Bartleby. De início, o personagem se mostra eficaz nos serviços a ele propostos até o dia em que seu chefe "pede" que eles revisem juntos um documento. Bartleby simplesmente recusa a tarefa com a frase: I would prefer not to (Eu prefiro não fazer). O advogado então fica sem saber o que fazer com o empregado, que, no desenrolar da história, acaba se tornando uma mera estatua viva no ambiente. Uma história curta - pode ser lida em cerca de 3 horas - que fala sobre a vontade e o poder.

A saga do herói amoroso

Por Thaís Brugnara Rosa
- Como falar da evolução da literatura, se a primeira obra é Odisséia?– a pergunta retórica é do professor Cláudio Moreno, em um curso de mitologia grega. Concordo, depois de percorrer o Hades, na versão em prosa, e, em verso, sobreviver ao canto das sereias.

- Está tudo ali - resume o professor de jornalismo Paulo Roberto Araújo, participante do Palavra Falada. Concordo, depois de me perder nas inversões temporais do narrador, nos flashbacks e na trajetória do herói. Aliás, Ulisses é o típico herói de um épico grego. Assim como na tragédia e ao contrário da comédia, trata-se de um homem superior. Nobre, líder, guerreiro exímio e belo. Um humano tão mais que humano que é capaz de despertar a ira de Posêidon e a compaixão de Palas Athena.

- Está inclusive o amor – penso com minha mania romântica de ver a vida, de ver os livros. É por amor que se faz a guerra. É o rapto de Helena, a mulher mais linda, que, de tão linda, não se descreve. Páris é o ladrão apaixonado, mas como culpar essa loucura lírica se ela é manipulada por Afrodite? Bem, a Guerra de Tróia é narrada em Llíada. Falemos de Odisséia.

O amor de Telêmaco faz com que ele viaje à procura do pai. O amor de Penélope faz com que ela, nas madrugadas, desmanche o manto. E é por amor que Odisseu tenta, por dez anos, voltar para casa. E, para isso, entre tantos obstáculos, resiste às sereias, “enfrenta” Circe (que transforma humanos em porcos), fura o olho do Ciclope. Por amor, ele vai até o inferno, o Hades, onde encontra a mãe, a quem tenta abraçar por três vezes. Eu vejo o amor também nesses deuses de paixões humanas, que brincam com o destino; assim como, o destino brinca com a gente.

E, por amor, nós do Palavra Falada tentamos, milênios depois, falar de literatura.
- Está tudo ali - disse Paulo Roberto. Inclusive, esta oralidade que, hoje, tentamos recuperar. Os cantos da Odisséia era recitados pelos Rapsodos –do grego, “aqueles que costuram os cantos uns dos outros” - que declamavam, ao som da lira, versos épicos.

- Como falar da evolução da literatura, se a primeira obra é Odisséia? –perguntou Moreno. Se, com essa distância milenar de homens e deuses, continuamos entoando as aventuras de Odisseu em um programa de rádio? Nós, do Palavra Falada, somos rapsodos que, por amor, utilizamos microfone e internet, para costurar os textos uns dos outros.

sábado, 30 de agosto de 2008

Um gênero às avessas

Por Maicon Paim
Graças a Edgar Allan Poe o romance policial existe. No entanto, graças ao conjunto de autores que ousaram no gênero, ele não se manteu refém da estrutura pensada por seu criador. Ruth Rendell é alguém que resolveu desafiar as regras e chutar contra o próprio gol. Ela tem duas coisas que se espera de um escritor de histórias policiais: ter nascido na Inglaterra e ter publicado mais de cinqüenta livros. No entanto, se em parte o estereótipo é verdadeiro, ele não é de todo. O livro “Um assassino entre nós” (A Judgement in stone, 1977) não precisa de muitas linhas para ser original. Mais precisamente ele precisa da seguinte frase: “Eunice Parchman matou a família Coverdale porque não sabia ler nem escrever.” O leitor desavisado, que não recorre ao resumo do livro, pode achar que houve um erro de impressão, um descuido tão grande que colocou o “surpreendente final” no início. Não se trata disso, pois bastam as duas páginas do primeiro capítulo para a autora revelar todos os principais acontecimentos da história. Ficamos sabendo que Eunice Parchman é analfabeta e vai trabalhar como governanta na casa de uma família rica que mora no interior da Inglaterra. Esta família (os Coverdale) não sabe do analfabetismo dela, e ela faz questão que eles não saibam, assim como fez questão durante os seus mais de quarenta anos de vida que ninguém soubesse disso. Os pais de Eunice eram as únicas testemunhas do seu segredo, e fiéis à filha carregaram-no até a morte. Infelizmente, ela não vai ter o mesmo sucesso, e o patriarca dos Coverdale, George, sua segunda esposa, Jaqueline, o filho dela, Giles, e a filha dele, Melinda, vão pagar com sangue por saberem demais.

O leitor que for esperto, antes de se sentir frustrado e abandonar a leitura por ter os fatos escancarados, deve dar uma chance à autora e continuar a desempenhar o seu papel. No livro “Como e porque ler”, o crítico literário Harold Bloom diz que um dos motivos de ler é porque não há outra forma de conhecer tão intimamente uma pessoa como através da leitura. Rendell se vale dessa máxima de Bloom para extrair a força de “Um assassino entre nós”. É através da caracterização psicológica dos personagens que o livro conquista a nossa adesão.

A autora constrói o perfil de cada um dos personagens, o que nos torna íntimos destas figuras. Nos desperta uma amargura o fato de sabermos que aquelas pessoas que estamos conhecendo, em breve, terminarão suas vidas de forma trágica. A personagem que a autora mais aproxima do leitor é Eunice, a governanta analfabeta. Rendell imagina como é o mundo atual para um analfabeto: “A alfabetização é um das pedras angulares da civilização. Ser analfabeto é ser deformado. E o desprezo que antes era dirigido à aberração física pode, talvez com mais justiça, recair sobre os analfabetos.” (pág. 07)

Como algumas ironias trazem as verdades mais trágicas, a única coisa que Eunice aprendeu na escola foi a esconder o fato de que não sabia ler nem escrever. E esta lição ela pôs em prática todos os dias da sua vida. Se você consegue esconder dentro de uma sala de aula que não sabe ler nem escrever, não deve ser tão difícil fora, certo? Esta tese estava comprovada até Eunice se deparar com o mundo literário em que viviam os Coverdale. Uma família culta era um risco maior do que uma sala de aula cheia. Eunice fugia dos livros como se fugisse de uma cobra venenosa. Para sua infelicidade e para dos Coverdale, naquela casa não havia como fugir, a palavra impressa estava em todas as partes. Ela não mantinha contato com qualquer pessoa instruída, pois falavam de coisas que ela não compreendia. Assim, para evitar o maior constrangimento de sua vida, logo que encerrava suas atividades ela se trancava no quarto e mantinha contato com a única companhia que lhe agradava: a TV.

Tudo ia bem até os Coverdale resolverem interferir na privacidade de Eunice. Eles se mostraram muito preocupados com o comportamento tão retraído dela (não tem amigos, família, há meses não sai de casa). Eles tentam mudar isso, e como alerta a autora “egoísmo não é viver como se quer, mas exigir que os outros vivam como se quer”. Quando tentaram impor um estilo de vida a ela, eles descobriram a verdade e sofreram as conseqüências. Os Coverdale não compreenderam que uma pessoa convive tanto tempo com uma mentira, com um segredo, que depois não consegue mais viver sem ele.

Rendell nos faz sentir medo e piedade da sua Eunice. Estes dois sentimentos são suficientes para mostrar que nem só de um enredo mirabolante sobrevive o gênero policial. Muitas vezes o gênero deve suas honras a estes personagens que são tão parecidos com nós no seu melhor e no seu pior.