domingo, 31 de agosto de 2008

A saga do herói amoroso

Por Thaís Brugnara Rosa
- Como falar da evolução da literatura, se a primeira obra é Odisséia?– a pergunta retórica é do professor Cláudio Moreno, em um curso de mitologia grega. Concordo, depois de percorrer o Hades, na versão em prosa, e, em verso, sobreviver ao canto das sereias.

- Está tudo ali - resume o professor de jornalismo Paulo Roberto Araújo, participante do Palavra Falada. Concordo, depois de me perder nas inversões temporais do narrador, nos flashbacks e na trajetória do herói. Aliás, Ulisses é o típico herói de um épico grego. Assim como na tragédia e ao contrário da comédia, trata-se de um homem superior. Nobre, líder, guerreiro exímio e belo. Um humano tão mais que humano que é capaz de despertar a ira de Posêidon e a compaixão de Palas Athena.

- Está inclusive o amor – penso com minha mania romântica de ver a vida, de ver os livros. É por amor que se faz a guerra. É o rapto de Helena, a mulher mais linda, que, de tão linda, não se descreve. Páris é o ladrão apaixonado, mas como culpar essa loucura lírica se ela é manipulada por Afrodite? Bem, a Guerra de Tróia é narrada em Llíada. Falemos de Odisséia.

O amor de Telêmaco faz com que ele viaje à procura do pai. O amor de Penélope faz com que ela, nas madrugadas, desmanche o manto. E é por amor que Odisseu tenta, por dez anos, voltar para casa. E, para isso, entre tantos obstáculos, resiste às sereias, “enfrenta” Circe (que transforma humanos em porcos), fura o olho do Ciclope. Por amor, ele vai até o inferno, o Hades, onde encontra a mãe, a quem tenta abraçar por três vezes. Eu vejo o amor também nesses deuses de paixões humanas, que brincam com o destino; assim como, o destino brinca com a gente.

E, por amor, nós do Palavra Falada tentamos, milênios depois, falar de literatura.
- Está tudo ali - disse Paulo Roberto. Inclusive, esta oralidade que, hoje, tentamos recuperar. Os cantos da Odisséia era recitados pelos Rapsodos –do grego, “aqueles que costuram os cantos uns dos outros” - que declamavam, ao som da lira, versos épicos.

- Como falar da evolução da literatura, se a primeira obra é Odisséia? –perguntou Moreno. Se, com essa distância milenar de homens e deuses, continuamos entoando as aventuras de Odisseu em um programa de rádio? Nós, do Palavra Falada, somos rapsodos que, por amor, utilizamos microfone e internet, para costurar os textos uns dos outros.

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