quinta-feira, 4 de setembro de 2008

A Fúria do Corpo

Por: Maicon Paim
Geralmente nos livros de João Gilberto Noll encontramos um personagem anônimo que percorre uma grande viagem sem nenhum motivo aparente. O personagem vaga pelo mundo sem propósito. Parece ao mesmo tempo fugir de uma ameaça que não se conhece e partir a procura de algo que também é um mistério.

A Céu Aberto representa uma radicalização das histórias apresentadas por este autor gaúcho que não concede nuvem para o leitor se agarrar.

No ínicio temos a figura de um garoto acordando de um pesadelo em um lugar imundo. Ele está com fome e encontra deitado ao seu lado o irmão ardendo em febre. Sabemos que estas duas crianças vivem de esmolas e que o pai delas luta em uma Guerra sem nome. O menino sem nome e sem idade carrega o irmão até o campo de batalha para pedir ajuda ao pai para comprar medicamentos. Encontra o pai na maior tenda do regimento O pai na figura de um general deixa que o filho mais novo seja tratado na enfermaria do exército.

Até aí a história mantém uma certa verossimilhança. Depois Noll parece impor sua fúria implodindo com a narrativa. Temos então um protagonista que vaga pelo acampamento militar sem conseguir encontrar o irmão adoentado e por um passe de mágica se torna membro do exército. Do campo de batalha avista o irmão saindo da enfermaria vestido de noiva. Do lado de fora uma dezena de soldados o conduz como em uma cerimônia de casamento até uma tenda do outro lado do acampamento onde um soldado os aguarda. Diante da visão inintelígivel o protagonista-narrador resolve desertar e vagar pelo mundo.

Na obra de Noll temos um niilismo extremado, pois a vida não tem nenhum sentido inerente; o homem vive como um animal. É reduzido a um ser biológico que sobrevive (dorme, se alimenta, faz sexo). O cineasta brasileiro Claudio Assis disse que o homem é sexo, estômago e tempo parado. Seria uma perfeita interpretação para os personagens de Noll, não fosse pelo tempo que eles gastam ao andar pelo mundo como se um sentido de urgência os obrigasse.

O sexo e a morte são os grandes temas do autor e são representados na forma de descrições cruas e violentas. O corpo parece ser o grande lugar onde habitam os sentimentos. Todas as emoções são reduzidas a manifestações biológicas. As dores e as angústias se apresentam na forma de feridas, de sangue, de pus e de sêmen.

Em várias passagens o protagonista diz que gostaria de sair de si mesmo, ser outro. O caminho para esta fuga é a urina, as fezes, o sêmen e o vômito. Na epígrafe do livro lemos: “Foi ontem a noite. Aqui estou e seja em mim esta manhã”. É como se a cada manhã houvesse a possibilidade de ser outro, habitar um outro corpo. A noite representaria a esperança do apagamento do sujeito. Superar a insuficiência do corpo se manifesta como a última esperança do personagem.

A Céu Aberto é narrado em primeira pessoa pelo protagonista-narrador e não possui separação em capítulos. Não há suspiro de alivio por parte do leitor. Somos atirados nesse jorro de palavras que nos acompanha do início ao fim do texto. Não é possível distinguir passado e presente, o que é real e o que é imaginação. Tudo é indeterminado: os personagens, o tempo, o espaço, a Guerra.

Noll rompe com a narrativa tradicional. A possibilidade de depreender algo a partir de uma lógica cartesiana onde 2 + 2 = 4 não existe. É um livro que explora nossos sentimentos e instintos. Procurar atar as cenas na busca por uma explicação para o todo é uma tarefa em vão, pois as cenas falam por si.

Portanto, na obra o homem é uma máquina biológica em que impera um determinismo inscrito em seus genes. Por ter um córtex é consciente desta condição e da sua condição final, por isto sofre como um animal inquieto vagando pelo mundo.

Grenouille, um alquimista do crime.




















Por:Luciana Rosa


O livro "O perfume, a história de um assassino" do alemão Patrick Süskind foi publicado em 1985 e é uma das 5 obras deste autor traduzidas para o português. Este livro ficou conhecido como uma das obras mais destacadas da literatura alemã da década de 1980.

Patrick Süskind é um historiador, especialista nos períodos medieval e moderno, talvez por isso retrate tão bem o imaginário europeu, e mesmo o cotidiano das pessoas durante do século XVIII, período em que se passa a narrativa do livro.

Jean-Batiste Grenouille, é um pobre diabo que nasce em meio a uma peixaria nos arredores de Paris. Ali, na sujeira, imerso em uma cidade que em função da Revolução Comercial e Urabana do século XII crecera demasiadamente. A sobreposição de pessoas, a falta de uma estrutura de saneamento faziam da Europa e, especialmente de Paris, um dos lugares mais fedorentos de todo o mundo.

Ao mesmo tempo em que se vivia o império do mau-cheiro, existem profissionais que fazem da captação dos aromas sua ciência. A produção de perfumes na era pré-moderna é quase uma operação de alquimia, sendo que apenas poucos iniciados tinham aval para exercer tal função.

Grenouille, que muito mais se assemelha a um rato do que a um ser humano, tem o dom natural de sentir todos os oderes, seu olfato é algo de sobrenatural. Entretanto, ao mesmo tempo que ele pode sentir o cheiro de alguém a quilometros de distância, o mesmo não acontece para com ele, pobre criatura sem cheiro nenhum.

Jean-Bastipte nunca sentiu amor por alguém, ou mesmo foi amado - ora, quem amaria alguém sem cheiro? O sentimento mais próximo que tivera de amor, foi o fascinio que sentiu pelo perfume natural de uma bela moça, a quem este assassina para roubar-lhe a fragrância.

A partir do crime, Grenouille traça um plano, assassinar 26 mulheres, as mais belas que encontram, sejam elas prostitutas, camponesas ou donzelas e transformar sua beleza em perfume...se ele consegue e o que faz com isso, são letras a serem descobertas pelo leitor, afinal este também é um livro de mistério.

Este livro pode causar reações adversas a quem o lê-lo, você pode começar a sentir cheiro no vidro, na madeira, no aço, e em tantos outros elementos que antes acreditavas ser inodoro. O perfume é uma obra que fascina, Kurt Cobain, ex-líder do Nirvana era fã confesso, tanto que a canção "Scentless Apprentice" do albúm "In Utero" é uma referência ao livro.




















Por fim, a que se dizer que esta obra foi adaptada para o cinema, apesar de durante muito tempo este feito ser considarado improvável: "Como traduzir odor para as telas"? No entanto, o diretor de "Corra, Lola", corra e "Paraíso" Tom Tykwer encarou este desafio e estreou em 2006 com a película. O narrador em terceira pessoa teve de ser mantido, o que para muitos não funciona muito bem no cinema, entranto, assim como o livro o filme é uma grande obra, na minha humilde opinião.

Uma torrada de Velho Safado
























Por: Luciana Rosa

Há quem diga que aquele que não leu Misto-quente, não leu Bukowski. O velho safado, como o autor é conhecido, relata neste livro a infância e adolescência de seu alter-ego Henry Chinaski.

Subúrbio de Los Angeles(Califórina - EUA) na década de 20 e 30, a crise gerada pelo crash da bolsa de valores em 1929 assola os Estados Unidos, as conseqüências são ainda mais drásticas para os desajustados. A família de Henry, em especial seu pai, não possuem nenhum tipo de perspetiva, não existe nenhum tipo de sentimento, ou de esperança na relação dessa família, ou mesmo entre seus integrantes e o mundo ao seu redor.

Chinaski é um retrato disso, ele não faz amizades no colégio, apanha sempre dos garotos mais populares e enquanto seus colegas estão iniciando sua vida sexual, ainda que precocemente, Henry continua apenas imaginando coisas com as professoras.

Henry, o protótipo do velho safado, aprende a beber ainda cedo, na mesma fase em que procura por trabalho, mas não consegue permanecer mais de três dias em uma mesma função. Sua infância e adolescência se mostram um momento em que ele apenas aprende o que viria a ser uma de suas prinipais caraterísticas: a total indiferena diante dos fatos.

Escrever é um refúgio, é um prazer, mentir para que as pessoas se ludibriem, essa é a jogada de Chinaski. Sem perspectivas, sem heranças, sem dinheiro, só lhe resta a velha máquinha de escrever. E assim se fazem os vagabundos - cá para nós,tão charmosos - que as agruras do século XX tanto produziram.

P.S. Se tiver intenções de ler Bukowiski, não esqueça de passar no mercado e comprar algumas cervejas. Ninguém pode entender Chinaski de "bico-seco".

terça-feira, 2 de setembro de 2008

Notas (1)

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Por Leonardo Foletto

A Editora do Bispo disponibilizou no início deste mês todo o seu acervo para donwnload gratuito. Para baixá-los, basta acessar o site e ir no link downloads.

Entre os livros disponíveis estão:

_ Mídia, Máfia e Rock'roll, de Cláudio Júlio Tognolli, Doutor em Comunicação pela USP, colaborador da Rolling Stone Brasil e um dos mais destacados jornalistas investigativos do Brasil.

_ No País da piada pronta:Dicionário Lulês, Tucanês e Anti-Tucanês, de José Simão, colunista de diversos jornais do país.

_ Por que se mete, porra? Delicadezas de Paulo César Peréio. Peréio é ator, com mais de 30 filmes  e peças no currículo, e também apresenta o programa Sem Frescura, no Canal Brasil.

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