Por Maicon Paim
Graças a Edgar Allan Poe o romance policial existe. No entanto, graças ao conjunto de autores que ousaram no gênero, ele não se manteu refém da estrutura pensada por seu criador. Ruth Rendell é alguém que resolveu desafiar as regras e chutar contra o próprio gol. Ela tem duas coisas que se espera de um escritor de histórias policiais: ter nascido na Inglaterra e ter publicado mais de cinqüenta livros. No entanto, se em parte o estereótipo é verdadeiro, ele não é de todo. O livro “Um assassino entre nós” (A Judgement in stone, 1977) não precisa de muitas linhas para ser original. Mais precisamente ele precisa da seguinte frase: “Eunice Parchman matou a família Coverdale porque não sabia ler nem escrever.” O leitor desavisado, que não recorre ao resumo do livro, pode achar que houve um erro de impressão, um descuido tão grande que colocou o “surpreendente final” no início. Não se trata disso, pois bastam as duas páginas do primeiro capítulo para a autora revelar todos os principais acontecimentos da história. Ficamos sabendo que Eunice Parchman é analfabeta e vai trabalhar como governanta na casa de uma família rica que mora no interior da Inglaterra. Esta família (os Coverdale) não sabe do analfabetismo dela, e ela faz questão que eles não saibam, assim como fez questão durante os seus mais de quarenta anos de vida que ninguém soubesse disso. Os pais de Eunice eram as únicas testemunhas do seu segredo, e fiéis à filha carregaram-no até a morte. Infelizmente, ela não vai ter o mesmo sucesso, e o patriarca dos Coverdale, George, sua segunda esposa, Jaqueline, o filho dela, Giles, e a filha dele, Melinda, vão pagar com sangue por saberem demais.
O leitor que for esperto, antes de se sentir frustrado e abandonar a leitura por ter os fatos escancarados, deve dar uma chance à autora e continuar a desempenhar o seu papel. No livro “Como e porque ler”, o crítico literário Harold Bloom diz que um dos motivos de ler é porque não há outra forma de conhecer tão intimamente uma pessoa como através da leitura. Rendell se vale dessa máxima de Bloom para extrair a força de “Um assassino entre nós”. É através da caracterização psicológica dos personagens que o livro conquista a nossa adesão.
A autora constrói o perfil de cada um dos personagens, o que nos torna íntimos destas figuras. Nos desperta uma amargura o fato de sabermos que aquelas pessoas que estamos conhecendo, em breve, terminarão suas vidas de forma trágica. A personagem que a autora mais aproxima do leitor é Eunice, a governanta analfabeta. Rendell imagina como é o mundo atual para um analfabeto: “A alfabetização é um das pedras angulares da civilização. Ser analfabeto é ser deformado. E o desprezo que antes era dirigido à aberração física pode, talvez com mais justiça, recair sobre os analfabetos.” (pág. 07)
Como algumas ironias trazem as verdades mais trágicas, a única coisa que Eunice aprendeu na escola foi a esconder o fato de que não sabia ler nem escrever. E esta lição ela pôs em prática todos os dias da sua vida. Se você consegue esconder dentro de uma sala de aula que não sabe ler nem escrever, não deve ser tão difícil fora, certo? Esta tese estava comprovada até Eunice se deparar com o mundo literário em que viviam os Coverdale. Uma família culta era um risco maior do que uma sala de aula cheia. Eunice fugia dos livros como se fugisse de uma cobra venenosa. Para sua infelicidade e para dos Coverdale, naquela casa não havia como fugir, a palavra impressa estava em todas as partes. Ela não mantinha contato com qualquer pessoa instruída, pois falavam de coisas que ela não compreendia. Assim, para evitar o maior constrangimento de sua vida, logo que encerrava suas atividades ela se trancava no quarto e mantinha contato com a única companhia que lhe agradava: a TV.
Tudo ia bem até os Coverdale resolverem interferir na privacidade de Eunice. Eles se mostraram muito preocupados com o comportamento tão retraído dela (não tem amigos, família, há meses não sai de casa). Eles tentam mudar isso, e como alerta a autora “egoísmo não é viver como se quer, mas exigir que os outros vivam como se quer”. Quando tentaram impor um estilo de vida a ela, eles descobriram a verdade e sofreram as conseqüências. Os Coverdale não compreenderam que uma pessoa convive tanto tempo com uma mentira, com um segredo, que depois não consegue mais viver sem ele.
Rendell nos faz sentir medo e piedade da sua Eunice. Estes dois sentimentos são suficientes para mostrar que nem só de um enredo mirabolante sobrevive o gênero policial. Muitas vezes o gênero deve suas honras a estes personagens que são tão parecidos com nós no seu melhor e no seu pior.
O leitor que for esperto, antes de se sentir frustrado e abandonar a leitura por ter os fatos escancarados, deve dar uma chance à autora e continuar a desempenhar o seu papel. No livro “Como e porque ler”, o crítico literário Harold Bloom diz que um dos motivos de ler é porque não há outra forma de conhecer tão intimamente uma pessoa como através da leitura. Rendell se vale dessa máxima de Bloom para extrair a força de “Um assassino entre nós”. É através da caracterização psicológica dos personagens que o livro conquista a nossa adesão.
A autora constrói o perfil de cada um dos personagens, o que nos torna íntimos destas figuras. Nos desperta uma amargura o fato de sabermos que aquelas pessoas que estamos conhecendo, em breve, terminarão suas vidas de forma trágica. A personagem que a autora mais aproxima do leitor é Eunice, a governanta analfabeta. Rendell imagina como é o mundo atual para um analfabeto: “A alfabetização é um das pedras angulares da civilização. Ser analfabeto é ser deformado. E o desprezo que antes era dirigido à aberração física pode, talvez com mais justiça, recair sobre os analfabetos.” (pág. 07)
Como algumas ironias trazem as verdades mais trágicas, a única coisa que Eunice aprendeu na escola foi a esconder o fato de que não sabia ler nem escrever. E esta lição ela pôs em prática todos os dias da sua vida. Se você consegue esconder dentro de uma sala de aula que não sabe ler nem escrever, não deve ser tão difícil fora, certo? Esta tese estava comprovada até Eunice se deparar com o mundo literário em que viviam os Coverdale. Uma família culta era um risco maior do que uma sala de aula cheia. Eunice fugia dos livros como se fugisse de uma cobra venenosa. Para sua infelicidade e para dos Coverdale, naquela casa não havia como fugir, a palavra impressa estava em todas as partes. Ela não mantinha contato com qualquer pessoa instruída, pois falavam de coisas que ela não compreendia. Assim, para evitar o maior constrangimento de sua vida, logo que encerrava suas atividades ela se trancava no quarto e mantinha contato com a única companhia que lhe agradava: a TV.
Tudo ia bem até os Coverdale resolverem interferir na privacidade de Eunice. Eles se mostraram muito preocupados com o comportamento tão retraído dela (não tem amigos, família, há meses não sai de casa). Eles tentam mudar isso, e como alerta a autora “egoísmo não é viver como se quer, mas exigir que os outros vivam como se quer”. Quando tentaram impor um estilo de vida a ela, eles descobriram a verdade e sofreram as conseqüências. Os Coverdale não compreenderam que uma pessoa convive tanto tempo com uma mentira, com um segredo, que depois não consegue mais viver sem ele.
Rendell nos faz sentir medo e piedade da sua Eunice. Estes dois sentimentos são suficientes para mostrar que nem só de um enredo mirabolante sobrevive o gênero policial. Muitas vezes o gênero deve suas honras a estes personagens que são tão parecidos com nós no seu melhor e no seu pior.

Um comentário:
Confesso que eu, que não sou leitora do gênero policial, fiquei interessada neste livro, principalmente por trabalhar a questão psicológica das personagens e pela inovação no estilo.
Isso é interessante no programa Palavra Falada: a variedade de gêneros e visões.
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