Por: Maicon Paim
Geralmente nos livros de João Gilberto Noll encontramos um personagem anônimo que percorre uma grande viagem sem nenhum motivo aparente. O personagem vaga pelo mundo sem propósito. Parece ao mesmo tempo fugir de uma ameaça que não se conhece e partir a procura de algo que também é um mistério.
A Céu Aberto representa uma radicalização das histórias apresentadas por este autor gaúcho que não concede nuvem para o leitor se agarrar.
No ínicio temos a figura de um garoto acordando de um pesadelo em um lugar imundo. Ele está com fome e encontra deitado ao seu lado o irmão ardendo em febre. Sabemos que estas duas crianças vivem de esmolas e que o pai delas luta em uma Guerra sem nome. O menino sem nome e sem idade carrega o irmão até o campo de batalha para pedir ajuda ao pai para comprar medicamentos. Encontra o pai na maior tenda do regimento O pai na figura de um general deixa que o filho mais novo seja tratado na enfermaria do exército.
Até aí a história mantém uma certa verossimilhança. Depois Noll parece impor sua fúria implodindo com a narrativa. Temos então um protagonista que vaga pelo acampamento militar sem conseguir encontrar o irmão adoentado e por um passe de mágica se torna membro do exército. Do campo de batalha avista o irmão saindo da enfermaria vestido de noiva. Do lado de fora uma dezena de soldados o conduz como em uma cerimônia de casamento até uma tenda do outro lado do acampamento onde um soldado os aguarda. Diante da visão inintelígivel o protagonista-narrador resolve desertar e vagar pelo mundo.
Na obra de Noll temos um niilismo extremado, pois a vida não tem nenhum sentido inerente; o homem vive como um animal. É reduzido a um ser biológico que sobrevive (dorme, se alimenta, faz sexo). O cineasta brasileiro Claudio Assis disse que o homem é sexo, estômago e tempo parado. Seria uma perfeita interpretação para os personagens de Noll, não fosse pelo tempo que eles gastam ao andar pelo mundo como se um sentido de urgência os obrigasse.
O sexo e a morte são os grandes temas do autor e são representados na forma de descrições cruas e violentas. O corpo parece ser o grande lugar onde habitam os sentimentos. Todas as emoções são reduzidas a manifestações biológicas. As dores e as angústias se apresentam na forma de feridas, de sangue, de pus e de sêmen.
Em várias passagens o protagonista diz que gostaria de sair de si mesmo, ser outro. O caminho para esta fuga é a urina, as fezes, o sêmen e o vômito. Na epígrafe do livro lemos: “Foi ontem a noite. Aqui estou e seja em mim esta manhã”. É como se a cada manhã houvesse a possibilidade de ser outro, habitar um outro corpo. A noite representaria a esperança do apagamento do sujeito. Superar a insuficiência do corpo se manifesta como a última esperança do personagem.
A Céu Aberto é narrado em primeira pessoa pelo protagonista-narrador e não possui separação em capítulos. Não há suspiro de alivio por parte do leitor. Somos atirados nesse jorro de palavras que nos acompanha do início ao fim do texto. Não é possível distinguir passado e presente, o que é real e o que é imaginação. Tudo é indeterminado: os personagens, o tempo, o espaço, a Guerra.
Noll rompe com a narrativa tradicional. A possibilidade de depreender algo a partir de uma lógica cartesiana onde 2 + 2 = 4 não existe. É um livro que explora nossos sentimentos e instintos. Procurar atar as cenas na busca por uma explicação para o todo é uma tarefa em vão, pois as cenas falam por si.
Portanto, na obra o homem é uma máquina biológica em que impera um determinismo inscrito em seus genes. Por ter um córtex é consciente desta condição e da sua condição final, por isto sofre como um animal inquieto vagando pelo mundo.
A Céu Aberto representa uma radicalização das histórias apresentadas por este autor gaúcho que não concede nuvem para o leitor se agarrar.
No ínicio temos a figura de um garoto acordando de um pesadelo em um lugar imundo. Ele está com fome e encontra deitado ao seu lado o irmão ardendo em febre. Sabemos que estas duas crianças vivem de esmolas e que o pai delas luta em uma Guerra sem nome. O menino sem nome e sem idade carrega o irmão até o campo de batalha para pedir ajuda ao pai para comprar medicamentos. Encontra o pai na maior tenda do regimento O pai na figura de um general deixa que o filho mais novo seja tratado na enfermaria do exército.
Até aí a história mantém uma certa verossimilhança. Depois Noll parece impor sua fúria implodindo com a narrativa. Temos então um protagonista que vaga pelo acampamento militar sem conseguir encontrar o irmão adoentado e por um passe de mágica se torna membro do exército. Do campo de batalha avista o irmão saindo da enfermaria vestido de noiva. Do lado de fora uma dezena de soldados o conduz como em uma cerimônia de casamento até uma tenda do outro lado do acampamento onde um soldado os aguarda. Diante da visão inintelígivel o protagonista-narrador resolve desertar e vagar pelo mundo.
Na obra de Noll temos um niilismo extremado, pois a vida não tem nenhum sentido inerente; o homem vive como um animal. É reduzido a um ser biológico que sobrevive (dorme, se alimenta, faz sexo). O cineasta brasileiro Claudio Assis disse que o homem é sexo, estômago e tempo parado. Seria uma perfeita interpretação para os personagens de Noll, não fosse pelo tempo que eles gastam ao andar pelo mundo como se um sentido de urgência os obrigasse.
O sexo e a morte são os grandes temas do autor e são representados na forma de descrições cruas e violentas. O corpo parece ser o grande lugar onde habitam os sentimentos. Todas as emoções são reduzidas a manifestações biológicas. As dores e as angústias se apresentam na forma de feridas, de sangue, de pus e de sêmen.
Em várias passagens o protagonista diz que gostaria de sair de si mesmo, ser outro. O caminho para esta fuga é a urina, as fezes, o sêmen e o vômito. Na epígrafe do livro lemos: “Foi ontem a noite. Aqui estou e seja em mim esta manhã”. É como se a cada manhã houvesse a possibilidade de ser outro, habitar um outro corpo. A noite representaria a esperança do apagamento do sujeito. Superar a insuficiência do corpo se manifesta como a última esperança do personagem.
A Céu Aberto é narrado em primeira pessoa pelo protagonista-narrador e não possui separação em capítulos. Não há suspiro de alivio por parte do leitor. Somos atirados nesse jorro de palavras que nos acompanha do início ao fim do texto. Não é possível distinguir passado e presente, o que é real e o que é imaginação. Tudo é indeterminado: os personagens, o tempo, o espaço, a Guerra.
Noll rompe com a narrativa tradicional. A possibilidade de depreender algo a partir de uma lógica cartesiana onde 2 + 2 = 4 não existe. É um livro que explora nossos sentimentos e instintos. Procurar atar as cenas na busca por uma explicação para o todo é uma tarefa em vão, pois as cenas falam por si.
Portanto, na obra o homem é uma máquina biológica em que impera um determinismo inscrito em seus genes. Por ter um córtex é consciente desta condição e da sua condição final, por isto sofre como um animal inquieto vagando pelo mundo.

2 comentários:
Desculpe o comentário pobre, mas a coisa que mais pensei durante a explanação sobre o teu livro foi: "O Lynch deveria filmar esse texto."
Na verdade pensei em dois cineastas. O Lynch pelo viés desnarrativo. e o Cronemberg por tratar do corpo.
Maicon
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